A semântica (do grego
σημαντικός, derivado
de sema, sinal)
refere-se ao estudo do
significado, em todos os
sentidos do termo. A
semântica opõe-se com
frequência à sintaxe, caso
em que a primeira se ocupa
do que algo significa,
enquanto a segunda se
debruça sobre as estruturas
ou padrões formais do modo
como esse algo é expresso
(por exemplo, escritos ou
falados).
À Semântica se ocupa do
significado. Certamente é a
parte da Lingüística que
suscita mais discussões pela
interface ampla que mantém
com a Filosofia. Tanto, que
no século XX a Semântica
tornou-se a prima pobre dos
estudos lingüísticos. Alguns
lingüistas chegaram ao
radicalismo de propor
teorias totalmente formais.
Nossa visão é de que
significante e significado
são indissociáveis e quando
se tenta tangenciar a
questão semântica o
resultado costuma ser
desastroso.
O estudo do sentido em
Lingüística tem uma dimensão
filosófica, mas no momento o
que vai nos ocupar é a
distinção entre alguns tipos
relevantes de sentido.
Sentidos próprio e figurado
Comumente afirma-se que
certas ocorrências de
discurso têm sentido próprio
e sentido figurado.
Geralmente os exemplos de
tais ocorrências são
metáforas. Assim, em 'Maria
é uma flor' diz-se que
'flor' tem um sentido
próprio e um sentido
figurado. O sentido próprio
é o mesmo do enunciado:
'parte do vegetal que gera a
semente'. O sentido figurado
é o mesmo de 'Maria, mulher
bela, etc.' O sentido
próprio, na acepção
tradicional não é próprio ao
contexto, mas ao termo.
O sentido
tradicionalmente dito
próprio sempre corresponde
ao que definimos aqui como
sentido imediato do
enunciado. Além disso,
alguns autores o julgam como
sendo o sentido
preferencial, o que
comumente ocorre, mas nem
sempre.
O sentido dito figurado é
o do enunciado que substitui
a metáfora, e que em leitura
imediata leva à mesma
mensagem que se obtém pela
decifração da metáfora.
O conceito de sentido
próprio nasce do mito da
existência da leitura
ingênua, que ocorre
esporadicamente, é verdade,
mas nunca mais que
esporadicamente.
Não há muito o que
criticar na adoção dos
conceitos de sentido próprio
e sentido figurado, pois ela
abre um caminho de abordagem
do fenômeno da metáfora. O
que é passível de crítica é
a atribuição de status
diferenciado para cada uma
das categorias.
Tradicionalmente o sentido
próprio carrega uma
conotação de sentido
'natural', sentido
'primeiro'.
Invertendo a perspectiva,
com os mesmos argumentos,
poderíamos afirmar que
'natural', 'primeiro' é o
sentido figurado, afinal, é
o sentido figurado que
possibilita a correta
interpretação do enunciado e
não o sentido próprio. Se o
sentido figurado é o
'verdadeiro' para o
enunciado, por que não
chamá-lo de 'natural',
'primeiro'?
Pela lógica da Retórica
tradicional, essa inversão
de perspectiva não é
possível, pois o sentido
figurado está impregnado de
uma conotação desfavorável.
O sentido figurado é visto
como anormal e o sentido
próprio, não. Ele carrega
uma conotação positiva,
logo, é natural, primeiro.
A Retórica tradicional é
impregnada de moralismo e
estetização e até a geração
de categorias se ressente
disso. Essa tendência para
atribuir status às
categorias é uma constante
do pensamento antigo, cuja
índole era hierarquizante,
sempre buscando uma
estrutura piramidal para o
conhecimento, o que se
estende até hoje em algumas
teorias modernas.
Ainda hoje, apesar da
imparcialidade típica e
necessária ao conhecimento
científico, vemos conotações
de valor sendo atribuídas a
categorias retóricas a
partir de considerações
totalmente externas a ela.
Um exemplo: o retórico que
tenha para si a convicção de
que a qualidade de qualquer
discurso se fundamenta na
sua novidade, originalidade,
imprevisibilidade, tenderá a
descrever os recursos
retóricos como 'desvios da
normalidade', pois o que lhe
interessa é pôr esses
recursos retóricos a serviço
de sua concepção estética.
Sentido imediato
Sentido imediato é o que
resulta de uma leitura
imediata que, com certa
reserva, poderia ser chamada
de leitura ingênua ou
leitura de máquina de ler.
Uma leitura imediata é
aquela em que se supõe a
existência de uma série de
premissas que restringem a
decodificação tais como:
-
As frases seguem modelos
completos de oração da
língua.
-
O discurso é lógico.
-
Se a forma usada no
discurso é a mesma usada
para estabelecer
identidades lógicas ou
atribuições, então,
tem-se, respectivamente,
identidade lógica e
atribuição.
-
Os significados são os
encontrados no
dicionário.
-
Existe concordância
entre termos sintáticos.
-
Abstrai-se a conotação.
-
Supõe-se que não há
anomalias lingüísticas.
-
Abstrai-se o gestual, o
entoativo e editorial
enquanto modificadores
do código lingüístico.
-
Supõe-se pertinência ao
contexto.
-
Abstrai-se iconias.
-
Abstrai-se alegorias,
ironias, paráfrases,
trocadilhos, etc.
-
Não se concebe a
existência de locuções e
frases feitas.
-
Supõe-se que o uso do
discurso é comunicativo.
Abstrai-se o uso
expressivo, cerimonial.
Admitindo essas
premissas, o discurso será
indecifrável, ininteligível
ou compreendido parcialmente
toda vez que nele surgirem
elipses, metáforas,
metonímias, oxímoros,
ironias, alegorias,
anomalias, etc. Também
passam despercebidas as
conotações, as iconias, os
modificadores gestuais,
entoativos, editoriais, etc.
Na verdade, não existe o
leitor absolutamente
ingênuo, que se comporte
como uma máquina de ler, o
que faz do conceito de
leitura imediata apenas um
pressuposto metodológico. O
que existe são ocorrências
eventuais que se aproximam
de uma leitura imediata,
como quando alguém toma o
sentido literal pelo
figurado, quando não capta
uma ironia ou fica perplexo
diante de um oxímoro.
Há quem chame o discurso
que admite leitura imediata
de grau zero da escritura,
identificando-a como uma
forma mais primitiva de
expressão. Esse grau zero
não tem realidade, é apenas
um pressuposto. Os recursos
de Retórica são anteriores a
ele.
Sentido preferencial
Para compreender o
sentido preferencial é
preciso conceber o enunciado
descontextualizado ou em
contexto de dicionário.
Quando um enunciado é
realizado em contexto muito
rarefeito, como é o contexto
em que se encontra uma
palavra no dicionário,
dizemos que ela está
descontextualizada. Nesta
situação, o sentido
preferencial é o que, na
média, primeiro se impõe
para o enunciado. Óbvio, o
sentido que primeiro se
impõe para um receptor pode
não ser o mesmo para outro.
Por isso a definição tem de
considerar o resultado
médio, o que não impede que
pela necessidade momentânea
consideremos o significado
preferencial para dado
indivíduo.
Algumas regularidades
podem ser observadas nos
significados preferenciais.
Por exemplo: o sentido
preferencial da palavra
porco costuma ser: 'animal
criado em granja para
abate', e nunca o de
'indivíduo sem higiene'. Em
outras palavras, geralmente
o sentido que admite leitura
imediata se impõe sobre o
que teve origem em processos
metafóricos, alegóricos,
metonímicos. Mas esta regra
não é geral. Vejamos o
seguinte exemplo: 'Um
caminhão de cimento'. O
sentido preferencial para a
frase dada é o mesmo de
'caminhão carregado com
cimento' e não o de
'caminhão construído com
cimento'. Neste caso o
sentido preferencial é o
metonímico, o que contrapõe
a tese que diz que o sentido
'figurado' não é o 'primeiro
significado da palavra'.
Também é comum o sentido
mais usado se impor sobre o
menos usado.
Para certos termos é
difícil estabelecer o
sentido preferencial. Um
exemplo: Qual o sentido
preferencial de manga?
O de fruto ou de
uma parte da roupa? |