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GRAMÁTICA10

     

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O MORFEMA

Quando fazemos a segmentação dos enunciados, podemos chegar a um ponto em que não é mais possível desmembrar o segmento sem que se perca sua função semântica. Embora não seja simples definir exatamente o que é função semântica, vamos por hora considerar que o segmento exerce essa função quando porta algum tipo de significado. Esse significado pode ser a evocação de uma noção do mundo real, a modificação de uma noção próxima, uma definição de número, tempo, o estabelecimento de uma relação entre itens adjacentes do discurso, etc. Quando chegamos ao ponto em que a continuidade da segmentação  implica em ausência de significado, então chegamos ao nível de morfema. Morfema é o segmento significativo mínimo do discurso.

Os falantes do português não possuem uma intuição forte dos morfemas. Se pedirmos às pessoas que usam o idioma para segmentarem o discurso em morfemas, a maioria encontrará dificuldades, se não passar antes por um aprendizado. Em parte, isso se explica porque no uso da língua a intuição dos morfemas é praticamente desnecessária. Nossa cultura é voltada para a segmentação do discurso em palavras e frases, mas não em morfemas. O nosso sistema de escrita contribui para essa característica cultural. Na escrita hieroglífica, por exemplo, existem grafemas que representam morfemas do idioma egípcio. Usuários desse sistema de escrita certamente têm uma intuição mais forte dos morfemas.

A definição de morfema é semelhante à de palavra. A diferença está no fato de que a palavra é uma forma livre. Já o morfema pode ser livre ou preso.

Morfemas livre e preso

Morfemas livres são aqueles que não se ligam obrigatoriamente a outros morfemas. Exemplos: um, de, mas, eu, sim. Veja que os exemplos dados podem ocorrer em várias posições nos enunciados de nossa língua sem que seja necessária a presença concomitante de outros morfemas para apoiá-los. Morfemas livres formam palavras de um só morfema, mas não se deve confundir palavra e morfema.

O morfema preso só ocorre concomitantemente a pelo menos um morfema adicional com o qual forma um conjunto indissociável. Exemplos: cant-ar, menin-inh-a-s. Na palavra cantar, temos dois morfemas indissociáveis: cant e ar. Não encontramos casos em língua portuguesa em que o segmento cant ocorre com independência do segmento ar ou outro da mesma classe que ar. Cant e ar são morfemas presos um ao outro. Os morfemas presos formam agrupamentos, que por sua vez são formas significativas livres mínimas, ou seja, palavras.

Morfema pausa

Um morfema não precisa ser formado obrigatoriamente por um conjunto de fonemas. A pausa delimita os sintagmas da frase, como os itens de uma enumeração, por exemplo. Quando a pausa tem função semântica, pode ser considerada morfema.

Morfema zero

Na língua portuguesa, em muitos casos, a função semântica é cumprida pela ausência do morfema. A formação do número é bem característica desse caso. O plural costuma ser indicado pelo morfema s no final da palavra. Já o singular, é reconhecido pela ausência de morfema de plural, ou seja, na formação do número, a ausência é significativa. Quando a ausência do morfema é tratada pelo sistema da língua como significativa dizemos que a função é cumprida pelo morfema zero.

Não é fácil definir categorias morfológicas, dada a heterogeneidade do conjunto tradicionalmente levantado pelos lingüistas. O melhor em se tratando dessas categorias é fazer uma definição extensiva. Em português, nos interessam as categorias tratadas por soluções baseadas em flexão. Assim sendo, vamos considerar as categorias de número, gênero, pessoa, caso, tempo, modo e aspecto. Poderíamos agregar à lista a categoria de definição, ligada ao uso dos artigos, mas em português esta categoria é um caso limítrofe que precisa de abordagem à parte.

Em outros idiomas, temos mais categorias como locativa, voz e categorias de caso mais ricas que a existente em português.

De forma simplificada, consideramos categoria morfológica a solução baseada em flexão, usada na língua para agregar traços específicos ao significado da palavra. Esses traços se distribuem de forma complementar, ou seja, quando um está presente, fica implícita a ausência do outro e todas as ocorrências possuem um dos traços possíveis.

Número

Nosso sistema de flexão em número comporta singular e plural. Línguas como o grego apresentam singular, dual e plural. A categoria número tem função semântica, pois indica singularidade ou pluralidade do significado do termo flexionado. Também apresenta função sintática, pois as frases em português seguem regras de concordância em que alguns termos da frase devem concordar entre si em número.

Gênero

Em português, há dois gêneros: feminino e masculino . Não utilizamos o neutro, presente em idiomas como inglês e alemão.

Em alguns casos, a função da categoria gênero é semântica, como nos pares a seguir:

O menino/a menina, o gato/a gata

Nos exemplos dados, a categoria gênero define um traço semântico, ou seja, estabelece o sexo do ser representado pelo substantivo.

Em português, muitos substantivos a que não pode associar característica de sexo, têm gênero implícito. É o que se vê na série a seguir:

O garfo, a colher, a faça, o prato.

Não é possível atribuir característica semântica de sexo aos substantivos do exemplo, mas em português mesmo substantivos assexuados estão associados convencionalmente a um gênero para garantir o funcionamento das regras de concordância sintática.

Grau

Em português, há dois sistemas de flexão de grau: o diminutivo-normal-aumentativo, típico dos substantivos e adjetivos e o sistema normal-superlativo, usado com adjetivos.

Não temos flexão de grau comparativo como ocorre, por exemplo, no inglês.

John is tall. (João é alto)

John is taller than Paul. (João é mais alto que Paulo.)

John is the tallest. (João é o mais alto.)

Caso

O caso está presente em nossa língua nas flexões dos pronomes pessoais. Observe o exemplo:

Eu pedi o livro a ele.

Ele entregou o livro a mim.

Nas duas frases, o mesmo ente é representado ora por eu, ora por mim. Eu e mim têm funções semelhantes mas são usados em contextos diferentes. Eu é empregado quando o pronome está em posição de sujeito da frase e mim, quando em função de objeto. Quando um lexema é flexionado segundo a função sintática que desempenha na frase, temos flexão de caso.

Em português, os pronomes pessoais apresentam duas flexões de caso: oblíquo e reto.

A flexão de caso dos nossos pronomes pessoais é um resíduo do latim que permaneceu em nossa gramática. Em latim, o uso das flexões de caso é bem mais intensivo, tanto que os substantivos em latim clássico apresentavam seis flexões de caso.

Pessoa

A categoria de pessoa é usada para discriminar as pessoas do discurso. Elas são três no português: primeira (quem fala), segunda (a quem se fala) e terceira (de quem se fala).

Tempo

Esta categoria morfológica também é típica dos verbos. Em nosso sistema verbal temos basicamente três tempos: futuro, passado e presente.

Modo

A categoria de modo está presente no sistema verbal do português. O verbo pode ser flexionado em três modos diferentes: imperativo, indicativo e subjuntivo. Simplificadamente, o modo indicativo é empregado para indicar ações de consumação certa, o subjuntivo para expressar ações hipotéticas ou o desejo de que determinada ação venha a se consumar e o imperativo é usado para incitar à ação.

Aspecto

Não existe só uma categoria de aspecto em português, mas três, que agrupamos em uma só por se manifestarem em apenas algumas flexões do sistema verbal.

De afirmação

O aspecto de afirmação está presente nas flexões verbais do modo imperativo. Este tempo verbal pode ter aspecto afirmativo, quando se incita positivamente à ação ou negativo, quando se incita à não consumar a ação.

De consumação

O aspecto de consumação ocorre nas flexões verbais do futuro do modo indicativo. Este aspecto pode ser confirmado, caso a ação seja considerada como certa no futuro ou então, cancelado, quando a ação é dada como não passível de consumação futura.

De duração

O aspecto de duração está presente nos tempos verbais do modo indicativo passado. Temos o aspecto pontual que indica ações consumadas em um momento específico. O aspecto durativo indica ações que se estendem para aquém e além de uma determinada marca temporal no passado. O aspecto imperfeito indica ações continuadas no passado. Por fim, o aspecto anterior indica ação consumada num passado anterior a uma marca temporal do passado.

Outras categorias morfológicas

Existem mais categorias morfológicas em outros idiomas. Em português, não temos flexão de voz, como ocorre, por exemplo, no latim clássico. Em nossa língua, a distinção de voz é feita com soluções sintáticas que dispensam flexão.

O artigo: morfema flexivo de definição

A Gramática Tradicional e as convenções de escrita estabelecem que artigo é palavra, o que contraria a definição de palavra como forma livre mínima. Mas se admitirmos que artigo é morfema flexivo, então, temos mais uma categoria de flexão no português: a definição. A categoria flexiva definição supre a necessidade semântica de distinguir entre dualidades como: particular/genérico, próprio/comum, definido/indefinido. Os artigos do português apresentam flexão definida e indefinida.

Finitude

A Gramática Tradicional considera a categoria de finitude,  específica dos verbos. Há duas opções de finitude: finita e infinita. A flexão do verbo é finita quando porta informação de tempo e modo e infinita quando indeterminada em tempo e modo.

São finitas flexões como: fizemos, fazíamos e faremos.

São infinitas: fazer, fazendo e feito.

A rigor, a categoria de finitude pode ser tratada como a categoria das flexões indefinidas em tempo e modo. Tudo depende de como classificamos as flexões verbais em português. Optamos por desconsiderar a categoria de finitude em nossa análise porque não há prejuízo em tratar as flexões infinitas como indeterminadas em tempo e modo. Com isso, simplificamos a classificação.

Resumindo as possibilidades de flexão de cada categoria morfológica do português temos a seguinte tabela:

Categoria Flexões
Número Plural e singular
Gênero Feminino e masculino
Grau Aumentativo, diminutivo, normal, e superlativo
Caso Oblíquo e reto
Pessoa Primeira, segunda e terceira
Tempo Futuro, passado e presente
Modo Imperativo, indicativo e subjuntivo
Aspecto de afirmação Negativo e positivo
Aspecto de consumação Cancelado e confirmado
Aspecto de duração Anterior, durativo e pontual
Definição Definido e indefinido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Classificar morfemas e palavras é uma tarefa complexa que talvez nunca chegue a um resultado satisfatório. Para começar, é preciso entender que as classificações não são boas em si, mas quando adequadas a um determinado fim. Uma boa classificação para uma finalidade não invalida outra, igualmente boa, que atende outra necessidade. Estudando os morfemas e palavras da língua portuguesa, encontramos vários pontos de vista que poderiam gerar classificações interessantes, por isso não vamos tentar estabelecer aqui a classificação morfológica definitiva. Faremos uma escolha por determinada abordagem, que diverge em alguns pontos da Gramática Tradicional, mas que a nosso ver lança luz sobre alguns aspectos ainda não esmiuçados a contento pelos estudos morfológicos.

Classificar morfemas ou palavras? A decisão não é simples, pois optando exclusivamente por uma ou outra unidade formal deixamos descobertos vários aspectos morfológicos importantes. Em função disso, vamos adotar uma solução intermediária. Primeiramente, vamos nos ocupar da classificação dos morfemas presos e, em seguida, passaremos à classificação de palavras, mesmo sabendo que a delimitação dos morfemas presos e palavras apresenta alguns problemas, resolvidos em nossa língua por convenção. Dessa forma, cremos que é possível dar conta das ocorrências morfológicas da língua portuguesa.

Resumidamente, apresentamos nossa proposta de classificação morfológica a seguir:

  • Classes de morfemas presos

    • Prefixos

    • Radicais

    • Sufixos

      • derivativos

      • flexivos

        • Nominais

        • Verbais

  • Classes de palavra

    • Adjetivos

    • Advérbios

    • Artigos

    • Conectivos

    • Demonstrativos

    • Interrogativos

    • Locativos

    • Possessivos

    • Preposições

    • Pronomes

    • Quantificadores

    • Remissivos

    • Subordinativos

    • Substantivos

    • Temporais

    • Verbos

Adotando outros critérios, poderíamos obter agrupamentos variados como, por exemplo:

  • Modificadores. Neste grupo poderíamos incluir adjetivos, advérbios, artigos, demonstrativos, possessivos e quantificadores.

  • Primários. Nesta classe poderíamos incluir os substantivos e os verbos, porque funcionam como modificados primários.

  • Relacionais. Esta classe conteria conectivos, preposições, remissivos e subordinativos.

  • Substitutos. Classe que reuniria interrogativos, locativos, pronomes, remissivos e temporais.

  • Nomes. Nesta classe entrariam substantivos, pronomes e outras classes que apresentam comportamento similar ao de substantivos.

  • Lexicais. Esta classe abrangeria os lexemas que portam significados nocionais, ou seja, aqueles que remetem à objetividade.

  • Gramaticais. Classe complementar a dos lexicais, que abrangeria lexemas relacionais e outros que exercem funções ditas gramaticais na frase.

A maior dificuldade em se adotar as classes acima advém do comportamento híbrido de muitas palavras do português. Os demonstrativos e os quantificadores, por exemplo, embora ocorram na maioria dos casos como modificadores, também ocorrem como substitutos. Os locativos e temporais têm características similares às dos advérbios.

As classificações aqui propostas não esgotam o assunto. A língua portuguesa apresenta desde classes amplas com milhares de lexemas e características morfológicas bem definidas como os verbos, até classes reduzidas com características voláteis e de  difícil enquadramento.  Não é ousado dizer que se levarmos o esforço de classificação até as últimas conseqüências encontraremos várias classes formadas por um só lexema. Que dizer, por exemplo, do lexema cujo, que apresenta características de remissivo e de possessivo simultaneamente? Que dizer de sim e de não, palavras tradicionalmente arroladas na classe dos advérbios mas que apresentam comportamento singularíssimo.

Classes de morfemas presos

Em nossa língua, há palavras formadas por um só morfema como de, a, e, com, eu, me, mas, bem, mal, etc. Desses morfemas, que são livres, trataremos no estudo das classes de palavra, pois nesse caso, morfema e palavra se confundem. Outras palavras, são formadas por mais de um morfema como des-en-cant-ado, geo-graf-ia, de-form-ado, etc. São palavras que contêm morfemas presos, os quais estudaremos a seguir.

Para trabalharmos em uma linha de raciocínio consistente vamos inicialmente considerar somente palavras que seguem o modelo regular de formação a que chamaremos PRS (prefixação-radical-sufixação). Esse modelo não é válido para todas as palavras de nossa língua, mas a partir dele, podemos estender a análise até abarcar as demais ocorrências. Vamos agora, analisar os componentes do modelo.

Radical

Observe a série a seguir:

Canto, cantos, cântico, cânticos, cantilena, cantilenas, cantoria, cantorias, cantiga, cantigas, cantata, cantatas, cantável, cantáveis, cantor, cantora, cantores, cantoras, cantar, cantando, cantado, cantas, cantamos.

O traço comum às palavras da série é o morfema cant, chamado radical, o qual porta a base de significação das palavras dadas. É uma base rarefeita, vaga, que vai sendo delimitada com maior precisão pelo acréscimo de outros morfemas à palavra.

O radical porta o núcleo de significação da palavra, que é determinado pelos prefixos e sufixos integrantes da palavra.

Prefixos

Na série a seguir, alguns prefixos estão em negrito.

Visível, invisível. Visibilidade, invisibilidade. Visivelmente, invisivelmente.

Escrito, reescrito. Escrever, reescrever. Escrita, reescrita.

Estruturar, desestruturar. Estruturado, desestruturado. Estruturadamente, desestruturadamente.

Os pares de palavras da série diferem entre si pelo morfema inicial (in, re e des) na segunda palavra do par. Analisando os pares da série vemos que a função dos morfemas in, re e des é alterar a base de significação do radical. In, re e des são prefixos típicos da língua portuguesa e apresentam características como:

  • Modificam a base de significação do radical.

  • Sempre são colocados antes do radical.

  • Não condicionam e independem da classe morfológica da palavra. O mesmo prefixo pode ser usado em palavras de classes diferentes como por exemplo: decompor (verbo), decomponível (adjetivo), decomposição (substantivo).

  • Não indicam número, gênero, grau ou qualquer informação típica de categorias morfológicas.

  • A inclusão de prefixos é optativa. Existem palavras sem prefixos no modelo PRS.

  • Pode haver mais de um prefixo na palavra. A princípio, o número de prefixos é indeterminado, mas na prática raramente se usa mais do que dois por palavra. Por exemplo: in-con-formado, de-com-por, re-des-cobrir, in-de-com-ponível.

  • O prefixo determina o que está à sua direita segundo um padrão concêntrico. O mais externo, determina o agrupamento mais interno. Por exemplo: na palavra in-de-com-pon-ível, o morfema com determina o radical pon diretamente, de determina o conjunto com-pon e in determina o conjunto de-com-pon. Representando as relações por parênteses teríamos: in(de(com(pon)))ível.

Sufixos derivativos

Sufixos são morfemas colocados após o radical nas palavras que seguem o modelo PRS. Vamos dividi-los em dois grupos: derivativos e flexivos.

Observe a série dada:

Cantilena, cantilenas.

Cantoria, cantorias.

Cantável, cantáveis

Cantar, cantaria.

Os morfemas em negrito cumprem duas funções: modificam a base semântica do radical e determinam a classe morfológica típica da palavra. O morfema ilena, por exemplo, dá à palavra uma característica substantiva. Isso quer dizer que a palavra passa a ter um espectro de significação típico de substantivo, o que habilita seu uso em contextos morfossintáticos específicos.

Os sufixos ilena e oria, são morfemas que definem perfil de substantivo para a palavra, mas geram palavras pertencentes a lexemas diferentes. Os traços de significação dos dois morfemas são distintos mas ambos dão às palavras que compõem características morfológicas substantivas.

Há, basicamente, quatro tipos de sufixos derivativos. Veja alguns exemplos.

  • Adjetivos: humanóide, humanista, dantesco.

  • Adverbiais: tranqüilamente.

  • Substantivos: compositor, advocacia, barbeiro.

  • Verbais: afugentar, dedilhar, amenizar.

Muitos verbos são formados simplesmente pela inserção do sufixo flexivo verbal após o radical. Exemplos: cant-ar, vend-er, part-ir. Em outros casos, estão presentes sufixos derivativos verbais como por exemplo: amen-iz-ar, bord-ej-ar, afug-ent-ar. Note que o sufixo derivativo verbal modifica a base de significação do radical. Bordejar é diferente de bordar.

Sufixos flexivos

Os sufixos flexivos agregam traços de significação à palavra, mas de forma bastante especializada. Os sufixos flexivos estão ligados às categorias morfológicas número, gênero, grau, pessoa, tempo, finitude, modo e aspecto. Podemos subdividir os sufixos flexivos em dois grupos: verbais e nominais.

Observe as séries que se seguem:

Canto, cantos.

Cântico, cânticos.

Cantilena, cantilenas.

Cantoria, cantorias.

Cantiga, cantigas

Cantata, cantatas

Cantável, cantáveis

Cantor, cantora, cantores, cantoras, cantorzinho.

Cantar, cantando, cantado, canto, cantas, canta.

Os morfemas em negrito são flexivos, pois portam informação de número, gênero, grau, etc. Algumas características importantes dos sufixos flexivos:

  • Os sufixos flexivos nominais indicam grau, gênero e número, comumente de forma analítica, ou seja, um morfema para grau, outro para gênero e um terceiro para número. Por exemplo: menin-inh-o-s.

  • A ordem dos sufixos flexivos nominais na palavra é GRAU+GÊNERO+NÚMERO.

  • Os sufixos flexivos verbais portam informações de pessoa, número, tempo, modo, finitude e aspecto sinteticamente. Não temos sufixação flexiva verbal analítica.

  • Os sufixos flexivos formam conjuntos que se distribuem de forma complementar. Por exemplo: em muitas palavras o morfema a indica feminino e o indica gênero masculino como em menino e menina. Os morfemas a e o se distribuem de forma complementar, ou seja, a presença de um exclui a presença do outro, mas todas as palavras do lexema a que pertencem têm um ou outro na sua formação.

Formações analítica e sintética

Na palavra inconformadas temos uma formação analítica, ou seja, cada morfema exerce uma só função.

  • in modifica con-form.

  • con modifica o radical.

  • form é o radical.

  • ad determina a classe dos adjetivos como típica para a palavra.

  • a indica gênero feminino.

  • s indica número plural.

Na palavra cantamos temos formação sintética, pois o morfema amos porta vários traços sinteticamente como indicar que se trata de verbo, primeira pessoa, plural, presente e modo indicativo. Os sufixos verbais, pelo caráter sintético, são ao mesmo tempo derivativos e flexivos.

O segundo radical

A Gramática Tradicional considera que a palavra pode apresentar mais de um radical como em mito-log-ia, geo-graf-ia e demo-crac-ia. Muitas palavras do português, originárias do latim e do grego, em especial as usadas nas ciências, apresentam esse tipo de formação.

Analogamente, teríamos: Psicologia, Sociologia, Termologia, Demografia, teocracia, aristocracia e plutocracia. Analisando com mais cuidado os morfemas considerados como primeiro radical da palavra, vemos que eles apresentam característica de prefixos, ou seja, são determinantes do radical que vem em seguida.

É o que ocorre com os exemplos dados.

Mitologia = estudo (logia)  dos mitos (mito)

Geografia = registros (grafia) da terra (geo)

Democracia = governo (cracia) do povo (demo).

Em nossa análise, vamos considerar que o primeiro radical da Gramática Tradicional é um tipo específico de prefixo e que as palavras de nossa língua apresentam apenas um radical. É bom lembrar, porém, que morfemas como mito, geo e demo têm natureza distinta de outros como in, re ou des. Aqueles são nocionais e estes têm um perfil mais próximo das preposições de nossa língua. Talvez em função disso, tenham sido tratados distintamente na Gramática Tradicional.

Modelo genérico

Podemos sintetizar a formação regular de palavras que seguem o modelo PRS na tabela a seguir,  que inclui notação em estilo matemático.

Constituinte

Seqüência

Lê-se

Palavra

Pal = (Pre) Rad Suf

Compõem a palavra: prefixação (opcional), radical e sufixação. 

Prefixação

Pre = ([Pref]n) Pref

Compõem a prefixação: prefixo mais um número indefinido opcional de prefixos extras.

Radical

Rad

O radical é indecomponível.

Sufixação

1  Suf = Sufs

A sufixação pode ser composta por sufixação substantiva.

2  Suf = Sufadj

A sufixação pode ser composta por sufixação adjetiva.

3  Suf = Sufv

A sufixação pode ser composta por sufixação verbal.

4  Suf = Sufadv

A sufixação pode ser composta por sufixação adverbial.

Sufixação substantiva

Sufs= (Sdsub) Sfgr Sfgn Sfn

A sufixação substantiva é composta por sufixo derivativo substantivo (opcional), sufixo de grau, sufixo de gênero e sufixo de número.

Sufixo derivativo substantivo

Sdsub

Indecomponível.

Sufixação adjetiva

Sufadj= Sdadj Sfgr Sfgn Sfn

A sufixação adjetiva é composta por sufixo derivativo adjetivo, sufixo de grau, sufixo de gênero e sufixo de número.

Sufixo derivativo adjetivo

Sdadj

Indecomponível.

Sufixo verbal

Sufv = (Sdver) Sfver

O sufixo verbal é formado por sufixo derivativo verbal (opcional) e sufixo flexivo verbal

Sufixo derivativo verbal

Sdver

Indecomponível

Sufixo flexivo verbal

Sfver

Indecomponível

Sufixo flexivo de grau

Sfgr

Indecomponível

Sufixo flexivo de gênero

Sfgn

Indecomponível

Sufixo flexivo de número

Sfn

Indecomponível

Sufixação adverbial

Sufadv= Sufadj.fem.sing mente

A sufixação adverbial é composta por sufixo adjetivo no feminino singular mais o sufixo mente.

Também podemos representar a estrutura morfológica das palavras em equações, progressivamente decompostas.

Pal = (Pre)

Rad

Suf

Pal = (([Pref]n) Pref)

R

Sufs

 

 

Sufadj

 

 

Sufv

 

 

Sufadv

P = ([Pref]n) Pref

R

(Sdsub) Sfgr Sfgn Sfn

 

 

Sdadj Sfgr Sfgn Sfn

 

 

(Sdver) Sfver

 

 

Sufadj.fem.sing mente

 

Lexema

A consciência difusa dos lexemas existe nos falantes, mesmo naqueles não iniciados nos estudos gramaticais. Percebemos isso em várias situações como quando o falante encontra em um texto uma palavra desconhecida, digamos: defenestrou. Ao consultar o dicionário, o falante, intuitivamente, vai procurar pelo verbete defenestrar. Ele quer saber o significado de uma palavra, mas procura por outra no dicionário, pois sabe que se descobrir o significado de defenestrar, entenderá o sentido de defenestrou. Isso ocorre porque as palavras defenestrar e defenestrou pertencem ao mesmo lexema.

Os dicionários utilizam intensivamente o conceito de lexema. Por medida de economia, os dicionários não apresentam entradas para todas as palavras do idioma e se limitam a fornecer uma entrada por lexema. Mas antes de definir lexema vamos apresentar alguns exemplos:

As palavras menino, menina, meninos e meninas fazem parte de um mesmo lexema.

As palavras cantar, cantei, cantamos, cantarias e cante compõem um lexema verbal.

As palavras lindo, linda, lindos, lindas, lindinha e lindíssima integram o mesmo lexema adjetivo.

Em português, lexema é um conjunto de palavras de mesma classe morfológica que se distribuem de forma complementar e diferem morfologicamente entre si unicamente por sufixos flexivos.

As palavras que compõem um lexema são chamadas de flexões do lexema.

Através de exemplos, vamos entender melhor o que é um lexema.

  • As palavras cantora e cantar não compõem um lexema porque não pertencem à mesma classe morfológica. A primeira é substantivo e a segunda, verbo.

  • As palavras cantoria, cantilena e cantata não pertencem ao mesmo lexema porque embora apresentem um radical comum e pertençam à classe dos substantivos, diferem entre si por sufixos derivativos e não por sufixos flexivos.

  • As palavras cantor, cantora, cantores e cantoras compõem um lexema porque pertencem à mesma classe morfológica, a dos substantivos, e diferem entre si unicamente por sufixos flexivos (morfema zero, -a, -es, -as). Além disso, se distribuem de forma complementar.

Em classes de palavra que não variam, como as das preposições e conjunções, temos lexemas formados de uma única palavra.

Lexemas irregulares

Temos que considerar o caso especial de grupo de palavras como homem/mulher ou boi/vaca. Trata-se da formação heteronímica em que não se verifica o padrão típico de formação que encontramos em pares como menino/menina ou gato/gata. Em nossa análise, vamos considerar esses grupos com formação heteronímica como lexemas também. Para isso, vamos ampliar a definição de lexema aceitando a possibilidade de incluir no mesmo lexema palavras que diferem morfologicamente em aspectos variados mas que semanticamente se distribuem seguindo o padrão dos lexemas regulares. Com isso, resolvemos algumas dificuldades como a de incluir no mesmo lexema todas as formas dos verbos irregulares.

Da mesma forma, palavras como este, esse e aquele serão consideradas integrantes do mesmo lexema, embora os dicionários dêem entrada a cada uma delas individualmente. Esse procedimento dos dicionaristas faz sentido por razões práticas, já que pouquíssimos usuários perceberiam que tais palavras são flexões de um mesmo lexema.

Citação de lexemas

Em português, seguimos algumas convenções para fazer referência a lexemas. O procedimento básico consiste em usar uma flexão específica do lexema para nomeá-lo.

Para citar lexemas verbais empregamos a flexão infinitiva impessoal. Por exemplo:

O verbo cantar é regular.

Amar, verbo intransitivo.

Para citar lexemas substantivos e adjetivos, usamos a flexão masculina singular. Por exemplo:

Garoto é substantivo comum.

A escolha da flexão que nomeia o lexema parece arbitrária em algumas situações, mas não em outras. Em latim, por exemplo, os lexemas verbais são citados pela flexão da primeira pessoa singular do presente indicativo. Um interessante estudo sociolingüístico poderia ser feito para levantar por que razões os substantivos costumam ser citados pela flexão masculina singular.

Locução, contração e fraseologia

Observe a série:

Riogrande

Belohorizonte

Matogrosso

Vamos usar os itens da série em dois contextos diferentes:

Exploramos uma região selvagem, de mato grosso, cortada por um rio grande e de onde se avista um belo horizonte.

Ele é natural de Rio Grande mas já morou em Belo Horizonte e está se mudando para o Mato Grosso.

No primeiro exemplo, as palavras que compõem o item da série portam significado isoladamente e no segundo, o significado é portado pelo conjunto.

Em nossa análise, consideramos que na maioria dos casos, palavra é a forma significativa livre mínima. A partir disso, concluímos que são palavras os segmentos: rio, grande, belo, horizonte, mato e grosso. Fica subentendido que existem contextos em que tais itens são empregados como palavras, ou de outro modo, que esses itens portam significados dicionarizados.

Se por um lado é correto afirmar que belo e horizonte são palavras em português, por outro temos que considerar que há contextos em que as duas palavras consideradas em conjunto definem um significado diferente da simples soma lógica dos significados individuais de cada uma.

Belo Horizonte é capital de Minas Gerais.

Na frase dada, o conjunto formado por Belo mais Horizonte define o nome da capital do estado de Minas Gerais. Situações como essa, em que duas ou mais palavras deixam de portar seus significados dicionarizados para, em conjunto, definirem um significado distinto da soma lógica dos significados individuais, caracterizam locução.

Locução é o conjunto de duas ou mais palavras que porta significado distinto daquele que advém da consideração das palavras isoladamente.

Ortografia de locuções

Em português, não há uniformidade na grafia de locuções. Há três soluções empregadas de forma arbitrária:

  • Separação dos itens por espaços. Exemplos: Rio de Janeiro, Campo Grande, cartão de visita, ponto de fusão.

  • Separação dos itens por hífen. Exemplos: guarda-chuva, porta-aviões, água-marinha, sempre-viva, bem-te-vi.

  • Escrita agrupada dos itens. Exemplos: sobremesa, pontapé, girassol, radioatividade.

Contração

Ao contrário da locução, em que duas ou mais palavras se comportam como uma se fossem uma só, na contração uma palavra desempenha a função de duas ou mais palavras. Em português, são comuns as contrações envolvendo preposições. Veja alguns exemplos:

Daquele cumpre as funções da preposição de com o demonstrativo aquele.

Nos faz o papel da preposição em com o artigo os.

 

 

 

 

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