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PONTO LITERÁRIO

   

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Crônica

Crônica.
Gênero literário em prosa, destinado à publicação na imprensa, que aborda sobretudo assuntos de atualidade e pequenos fatos cotidianos. Muito praticado no Ocidente a partir do século XVIII.

Bizantina, arte

v. tb. Braga, Rubem

O crítico formalista russo Viktor Chklovski definiu crônica como "conto sem enredo". Referia-se ao gênero literário que, nascido no século XVIII, foi cultivado por grande número de escritores e tornou-se para muitos o principal meio de vida.
Crônica é um gênero literário de assunto livre, mas geralmente voltado para os pequenos fatos do cotidiano, que se publica em jornal. Ao invés de descrever ou comentar acontecimentos do dia, apresenta reflexões sobre arte, política, acidentes, crimes e processos, valorizando os fatos do dia-a-dia. Embora tenda a prender-se à atualidade, não ignora o passado e o prognóstico do futuro. Sentimental ou humorística, pode ser tendenciosamente crítica, mas em geral não comunica agressividade.
A crônica é cultivada por tão grande número de escritores que sua história completa equivaleria a um corte transversal ao longo das literaturas ocidentais dos séculos XIX e XX. Seus primeiros cultores podem ser considerados os escritores ingleses Joseph Addison e Richard Steele, que fundaram em 1709 o semanário The Tatler (O conversador), publicado até 1711, cujos pequenos textos e artigos literários ou políticos, com reflexões morais ao gosto do novo público burguês, são crônicas típicas. Tão grande foi o sucesso que os dois autores continuaram editando outros semanários da mesma espécie, o que popularizou o gênero em vários outros países europeus. Esses semanários de linguagem predominantemente moral e dirigida à burguesia do século XVIII foram de grande importância histórica para a divulgação do gosto literário inglês e para preparar os caminhos do romance realista.
Em 1800, o Journal des Débats em Paris deu começo à publicação da crônica diária, que era posta abaixo de uma linha para separá-la da parte noticiosa do jornal. A grande época da crônica parisiense, no entanto, só começou em 1836, quando Émile de Girardin fundou o jornal La Presse, mais barato que seus concorrentes e muito popular. Foram seus colaboradores muitos escritores célebres da época. O Constitutionnel e o Temps também se destacaram na publicação de crônicas.
Depois de Paris, o gênero encontrou outro centro importante em Viena. Ludwig Speidel criou a crônica inconfundivelmente vienense, conhecida ali, como em Paris, pelo nome de feuilleton. Foi sucedido, entre outros, por Alfred Polgar, autor de An den Rand geschrieben (1926; Escrito à margem) e Ich bin Zeuge (1928; Sou testemunha).
No fim do século XIX os jornais italianos destinaram à crônica uma página inteira, a terza pagina, que chamavam elzevir por vir sempre composta em grifo, e empenharam-se em atrair os melhores escritores do país. O primeiro grande cronista italiano foi Edoardo Scarfoglio, que fundou em 1887 o Corriere di Napoli, mas suas crônicas nunca foram reunidas em volume. A maior parte dos escritores italianos do século XX, inclusive Alberto Moravia e Eugenio Montale, foram também cronistas.
O gênero foi muito contemplado pelos escritores brasileiros, de Olavo Bilac a Manuel Bandeira. Machado de Assis escreveu crônicas durante toda a vida. As de seus últimos anos, postumamente reunidas no volume A semana (1914), estão entre seus mais belos escritos. Ao longo do século XX, o Brasil consagrou excelentes cronistas como o poeta Carlos Drummond de Andrade, autor de Fala, amendoeira (1957), A bolsa & a vida (1962) e Cadeira de balanço (1966).
Especialista no gênero foi Rubem Braga, que escreveu exclusivamente crônicas. Foi considerado pela crítica um dos melhores escritores brasileiros da segunda metade do século XX, dando assim mais uma prova de que a crônica se firmou como gênero literário. Distinguiram-se ainda Sérgio Porto e Antônio Maria.

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