|
Gênero literário em verso ou prosa praticado desde a antiguidade a partir da crítica de pessoas e costumes pela deformação caricatural. Por extensão, qualquer obra que utilize este recurso.
Aristófanes ; Farsa
v. tb. Juvenal
A sátira age sobretudo pela deformação caricatural daquilo que se pretende atacar ou desmoralizar, mas comporta matizes diversos e não é necessariamente destrutiva. Contém, com freqüência, uma intenção reformadora, porque o conceito de sátira está ligado ao sentimento de indignação e à vontade de moralizar os costumes. Como elemento motivador da sátira, distingue-se o senso do ridículo, que é a percepção do lado cômico de personagens, situações e idéias.
Sátira é a composição literária que visa a ridicularizar ou censurar com humor atitudes consideradas viciosas. Na origem, foi um gênero literário fixo, determinado pela estrutura em versos. Estabeleceu-se desse modo na literatura latina, com ampla repercussão nos classicismos que vigoraram na Europa entre o Renascimento e o século XVIII. A partir do romantismo, a sátira desvinculou-se para sempre da tradição romana que lhe atribuía forma específica. Desde então, obras diversas do ponto de vista formal podem ser satíricas. Nesse sentido, a sátira passou a ser sobretudo uma atitude de combate assumida por escritores.
Do nascimento ao apogeu em Roma - Como invectiva e ataque pessoal, a sátira já está em essência nos epigramas de poetas gregos como Arquíloco, Simônides e Hipónax. Mas só com as comédias de Aristófanes, em que a percepção do ridículo se tornou mais profunda, os objetivos da sátira enquanto crítica de costumes se tornaram mais evidentes. Não obstante o espírito satírico ter nascido na Grécia, o gênero sátira é de invenção romana. Como poema escrito em metros diversos, desenvolveu-se a partir de Gaio Lucílio, de cuja obra restaram poucos fragmentos. A sátira poética, praticada ainda em Roma por Horácio, Pérsio e Juvenal, era moralizante e semifilosófica.
Com os epigramas de Marcial, o gênero começou a se libertar do moralismo e das regras. Abandonou afinal a própria forma poética no Satyricon de Petrônio, narrativa que mistura prosa e verso, e no Asno de ouro, de Apuleio, que já é um romance satírico totalmente em prosa. Idêntica orientação foi seguida por Luciano de Samósata, autor grego da Mesopotâmia, cujos tratados expõem os preconceitos à ação do escárnio. Com os grandes satiristas latinos, o gênero teve em Roma sua fase de esplendor no mundo antigo.
Da Idade Média aos tempos modernos. Há uma forte impregnação satírica em muitos gêneros medievais, como os fabliaux, as farsas, as soties, o ciclo do Roman de Renart, a qual também transparece nas cantigas de escárnio e de maldizer dos cancioneiros galaico-portugueses do final do século XII a meados do século XIV.
Já por essa época, retomado o veio aberto por Petrônio e Apuleio, a prosa se tornava o veículo por excelência da sátira, conduzindo às obras do italiano Giovanni Boccaccio. O espírito do humanismo é representado a seguir por Erasmo de Rotterdam, que no Elogio da loucura (1509) tomou como objeto de sátira a razão submissa aos dogmatismos. Na França, François Rabelais satirizou os monges, os burgueses e as convenções em suas narrativas sobre Pantagruel (1532) e Gargantua (1534). Na Espanha, o espírito satírico convergiu para a novela picaresca, gerando obras como o Lazarillo de Tormes ou como o Dom Quixote de Cervantes.
O século XVIII pode ser caracterizado, em especial na Inglaterra, como uma era de triunfo da sátira. O autor mais destacado, e também o mais radical, foi então Jonathan Swift, que nas Viagens de Gulliver (1726) satiriza a política, a sociedade inglesa e o próprio gênero humano. Daí para a frente, o espírito satírico, forte na França com Voltaire, Montesquieu e Beaumarchais, esteve cada vez mais presente na literatura, à medida que esta se afirmava, em todo o mundo, como arma de denúncia ou manifestação de discórdia. Tal espírito se evidencia, por exemplo, em romances de Eça de Queirós e na poesia de Gregório de Matos, assim como é parte inseparável da obra de autores tão diversos como Vittorio Alfieri, Nicolai Gogol, Gustave Flaubert, Alfred Jarry, Vladimir Maiakovski e Bernard Shaw.
©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. |