1.
Mimesis:
correspondia
ao
termo
mimético,
ou
seja,
a
imitação
quase
que
singular
de
aspectos
da
vida,
chegando
a se
confundir
muitas
vezes
com
a
própria
realidade.
2.
Catarse:
correspondia
ao
"purgar"
do
corpo
e da
alma,
esse
aspecto
era
muito
comum
nas
performances
teatrais,
fruto
dos
textos
passionais
especificamente
compostos
para
tal
fim,
na
maioria
das
vezes
os
atores
levavam
seus
sentimentos
no
palco,
de
forma
tão
realística,
que
acreditavam
ser
o
espetáculo
uma
projeção
da
própria
vida.
3.
Sublimação:
correspondia
ao
reflexo
do
ser
desejado
ou
das
aspirações
em
alguém
ou
algo,
uma
espécie
de
projecionismo.
A
TRAGÉDIA
GREGA:
AMBIENTES
E
FORMAS
Normalmente
encaramos
uma
tragédia
grega
como
um
livro
sobre
o
qual
nos
debruçamos
intelectualmente
com
o
objetivo
de
extrairmos
dele
alguma
compreensão
sobre
como
os
gregos
sentiam
o
trágico
em
suas
vidas
e
como
o
expressavam
artisticamente.
Essa
tem
sido
a
principal
abordagem
ao
longo
desses
últimos
séculos
e
foi
dessa
maneira
que
a
civilização
ocidental
incorporou
e
transformou
essa
forma
artística
única
criada
pelos
gregos.
No
entanto,
é
claro
que
não
era
assim
para
os
próprios
gregos.
Justamente
no
séc.
V
a.C.,
o
momento
de
maior
relevo
do
teatro
grego,
é
que
começamos
a
perceber
o
surgimento
de
uma
cultura
verdadeiramente
letrada
na
Grécia
antiga,
com
a
elaboração
e
venda
de
livros,
mas
este
importante
fenômeno
se
dá
ainda
de
forma
incipiente.
Há
ainda
na
verdade
uma
permanente
tensão
entre
o
oral
e o
escrito,
e
que
pode
ser
sentida
ainda
no
século
seguinte
na
obra
de
Platão,
onde
a
escrita
é
apresentada
com
certa
desconfiança.
Aos
poucos,
entretanto
a
experiência
da
leitura
de
tragédias
se
consolida
e é
célebre
a
passagem
em
que
Aristóteles
declara
que
é
possível
alcançar
também
o
efeito
trágico
ao
apenas
ler
uma
peça,
sem
uma
performance
pública.
Embora
eu
diria
que
deveria
ser
certamente
mais
prazeroso
apenas
ler
tragédias
de
Ésquilo,
Sófocles
e
Eurípides
que
ir
ao
teatro
para
assistir
as
peças
que
eram
encenadas
na
época
de
Aristóteles.
Hoje
para
nós
a
possibilidade
mais
comum
de
contato
com
as
tragédias
gregas
é
através
de
sua
transcrição
em
um
livro
e em
geral
em
tradução
para
as
línguas
européias
modernas.
Infelizmente
no
Brasil
ainda
não
temos
a
nossa
disposição
montagens
regulares
e
sistemáticas
do
teatro
grego
que
poderiam
sem
dúvida
abrir
novas
possibilidades
de
encontro
com
o
trágico
assim
como
era
percebido
pelos
gregos.
Mas,
apesar
dessas
poucas
montagens
esparsas,
o
que
vemos
em
cena
ainda
está
muito
distante
do
fenômeno
trágico
como
era
experimentado
em
Atenas
no
séc.
V
a.C.
Será
portanto
o
objetivo
dessa
conferência
fornecer
alguns
dados
sobre
o
ambiente
geral
da
performance
teatral
trágica,
ambiente
em
seu
sentido
mais
amplo,
isto
é,
sua
inserção
social
e
cultural,
suas
condições
materiais
de
existência
e
sua
forma
poética,
e
que
em
geral
não
estão
acessíveis
de
forma
imediata
a um
leitor
e
mesmo
espectador
contemporâneo,
de
modo
a
termos
uma
visão
introdutória
sobre
este
tema
e
possamos
a
partir
das
próximas
conferências
irmos
adiante
no
questionamento
propriamente
do
conteúdo
trágico.
OS
FESTIVAIS
DIONISÍACOS
O
ambiente
mais
geral
onde
se
insere
o
teatro
trágico
é o
da
comunidade,
especificamente
o da
cidade,
e o
da
religião,
na
forma
social
de
sua
expressão.
A
religião
grega
pode
ser
abordada
por
dois
aspectos
mais
exteriores.
De
um
lado,
o
lugar
sagrado,
onde
o
contato
com
os
deuses
se
realiza
através
de
sacrifícios,
de
outro,
a
festa,
quando
em
dias
determinados,
aos
quais
é
acrescentada
a
noite
anterior,
se
dá
uma
quebra
do
ritmo
cotidiano.
Assim,
se o
templo
acentua
o
espaço
da
comunidade,
a
festa
acentua
a
sua
temporalidade.
Era
nas
festas
(heortaí)
que
a
religião
viva,
verdadeiramente
praticada,
se
concentrava.
Durante
as
festividades
religiosas
o
trabalho
específico,
seja
produtivo
ou
não,
cessa,
a
distribuição
social
de
papéis
torna-se
mais
frouxa
e há
um
clima
de
descontração
geral.
Mas
não
só
isso.
Novos
papéis
são
criados
momentaneamente,
novos
grupos
se
associam
e
separam-se.
É um
momento
especial
que
de
diferentes
formas
é
destacado
do
cotidiano.
"O
contraste
em
relação
ao
habitual
pode
exprimir-se
no
prazer
e na
alegria,
nos
adornos
e na
beleza,
mas
também
na
ameaça
e na
morte."
(Burkert,
p.
207).
A
Tragédia
Grega
era
na
verdade
parte
de
uma
das
principais
festividades
religiosas
anuais
que
se
realizavam
em
Atenas,
as
Grandes
Dionísias
Urbanas.
Atenas,
como
as
demais
cidades
gregas,
tinha
o
seu
calendário
anual
recortado
por
inúmeras
e
diferentes
festas.
Na
verdade
cada
cidade
grega
tinha
a
sua
sucessão
particular
de
festas
e
portanto
o
seu
próprio
calendário,
mais
ainda,
havia
festas
exclusivas
apenas
de
determinada
tribo
na
cidade.
Seu
número
era
muito
grande.
O
calendário
melhor
conhecido
era
o
ático.
Em
Atenas
presumi-se
que
seriam
por
volta
de
60
dias
dedicados
exclusivamente
a
festividades
religiosas.
Portanto
poderíamos
dizer
que
se
vive
normalmente
de
uma
festa
até
a
outra.
Estas
são
tão
importantes
que
em
geral
os
próprios
nomes
dos
meses
ligam-se
às
festividades
mais
importantes
realizadas
naquele
espaço
de
tempo.
No
mês
Anthesterión,
por
exemplo,
se
realizava
a
festa
das
Antestérias,
a
festa
das
flores
e do
vinho
novo,
no
início
da
primavera.
A
festa
na
qual
eram
apresentadas
as
tragédias
gregas
era
em
homenagem
ao
deus
Dioniso.
Dioniso
era
um
deus
ligado
a
muitas
festividades.
Na
Ática,
que
nos
interessa
mais
de
perto,
havia
os
seguintes
tipos
de
festivais
dionisíacos:
-
As
Lenéias:
as
festas
dos
tonéis
de
vinho,
aproximadamente
em
janeiro;
-
As
Antestérias:
o
mais
antigo
dos
festivais
dionisíacos
e
por
isso
também
chamadas
de
"Velhas
Dionísias",
aproximadamente
em
fevereiro,
quando
os
barris
eram
abertos
e se
experimentava
o
vinho
novo;
-
As
Oscofórias:
o
festival
da
colheita
das
uvas,
realizadas
apromadamente
em
outuboro,
quando
havia
uma
corrida
de
rapazes
levando
ramos
de
parreiras.
Para
nós
são
mais
importantes
duas
outras
festas
em
honra
a
Dioniso,
as
Dionísias,
que
se
dividiam
em
Urbanas
e
Rurais,
e
especificamente
a
primeira
delas.
As
Dionísias
urbanas
ocorria
em
dois
momentos
no
calendário.
Primeiramente
na
Primavera,
logo
após
as
Antestérias,
em
fins
de
março,
quando
o
vinho
do
último
ano
está
maduro,
pronto
para
beber,
se
fazendo
portanto
a
abertura
dos
barris.
O
sentimento
geral
era
de
que
a
terra
está
acordando
para
uma
nova
vida.
Portanto,
percebemos
uma
continuidade
da
temática
do
"florescimento"
que
marca
este
mês.
Mas
havia
também
uma
Dionísia
urbana
no
inverno,
para
marcar
o
fim
do
trabalho
anual
e
que
em
Atenas
ocorria
no
início
de
Janeiro.
Já
as
Dionísias
rurais
eram
de
menor
proporção
e
aconteciam
em
dezembro
nos
distritos
rurais
da
Ática.
Nelas,
um
bando
de
foliões,
um
kômos,
carregando
um
falo
de
grandes
proporções,
cantava
canções
para
Dioniso,
as
chamadas
"canções
fálicas".
Nos
intervalos,
o
lider
divertia
os
espectadores
com
vulgaridades,
na
forma
de
monólogo
ou
diálogo.
Muitos
autores
consideram
que
foi
justamente
o
kômos
uma
das
origens
do
coro,
um
dos
aspectos
mais
particulares
do
drama
grego,
tanto
na
tragédia
como
na
comédia,
como
veremos
mais
a
frente.
As
Dionísias
Urbanas
ou
Grandes
Dionísias
tinham
a
seguinte
forma:
-
iniciavam-se
por
uma
procissão
que
escoltava
uma
antiga
imagem
de
Dioniso
ao
longo
da
estrada
que
conduzia
à
cidade
de
Eleutéria
e
regressava
depois
ao
altar
do
deus,
em
Atenas,
onde
um
bode
era
sacrificado
em
meio
a
danças
e
canções,
-
uma
virgem
conduzia
a
procissão
através
do
caminho,
adornada
com
ornamentos
dourados,
portando
a
cesta
sagrada,
cheia
de
bolos
e
flores.
Os
outros
participantes
da
procissão
conduziam
presentes
rurais
(uvas,
figos,
vinho)
e o
animal
a
ser
sacrificado.
Um
falo
era
carregado
no
alto.
Neste
cortejo
(gr.pompé,
existe
o
termo
latino
equivalente
pompa)
é
que
podemos
perceber
a
forma
fundamental
da
constituição
de
grupos.
Da
massa
amorfa
são
destacados
os
participantes
ativos
que
se
dirigem
para
um
objetivo,
mas
a
interação
com
o
outro
grupo
que
se
forma
simultaneamente
ao
longo
do
caminho,
os
espectadores,
é
tão
importante
quanto
o
próprio
objetivo
pelo
qual
se
forma
o
cortejo.
O
objetivo
da
pompé
é
naturalmente
um
santuário
no
qual
terá
lugar
o
sacrifício,
mas
o
próprio
caminho
também
tem
significado,
é
"sagrado".
Em
algumas
procissões
religiosas
são
apresentadas
já
dramatizações
de
caráter
mimético
da
partida,
o
abandono
do
santuário,
prefigurando
no
ritual
já a
forma
dramática.
Dentro
do
grupo
dos
participantes
ativos,
por
sua
vez
existem
papéis
bem
definidos,
como
a
portadora
do
cesto,
ou
os
portadores
do
falo,
no
caso
das
Grandes
Dionísias.
Em
outras
procissões
temos
a
portadora
da
água,
o
portador
do
fogo,
das
taças,
etc.
Os
participantes
indicam
o
seu
estatuto
particular
não
apenas
pelo
vestuário
festivo,
mas
também
pelas
coroas,
faixas
de
lã e
pelos
ramos
que
levam
nas
mão.
Esse
uso
de
sinais
exteriores
dos
papéis
a
serem
exercidos
no
ritual
serão
sem
dúvida
apropriados
mais
tarde
pelo
teatro.
O
monumento
clássico
que
permite
uma
visualização
completa
de
uma
grande
pompé
é o
friso
das
Panateneias
no
Partenon.
Torna-se
claro
então
como
as
procissões,
hinos
e
danças
de
caráter
festivo-religioso
prefiguravam
de
certa
forma
as
formas
que
o
teatro
grego
mais
tarde
assumiria.
O
divertido
kômos
e a
solene
pompé
são
a
contrapartida
puramente
ritual
dos
coros
cômicos
e
trágicos
do
teatro
grego.
Observemos
também
uma
outra
semelhança
entre
o
ritual
de
Dioniso
e a
tragédia.
A
forma
como
o
festival
dionisíaco
acontecia
na
Ática
era
bem
diferente
de
suas
manifestações
orientais
onde
era
observada
violência
selvagem
e
extática,
além
de
serem
realizadas
no
inverno
e a
noite.
Ocorreu
portanto
já
no
nível
do
ritual
a
passagem
de
uma
uma
simplicidade
rude
e às
vezes
brutal
a
graça,
dignidade
e
refinamento
que
serão
também
características
da
tragédia
ática.
Vejamos
agora
algo
sobre
o
próprio
deus
homenageado
nas
Grandes
Dionísias.
Dioniso
é um
deus
que
por
um
lado
está
associado
ao
fruto
carnudo
e
suculento,
como
a
uva
ou o
figo
e
nesse
sentido
se
opõe
a
Deméter,
deusa
dos
cereais,
do
trigo,
da
cevada.
Se
por
um
lado
a
fruta
no
dá
essa
sensação
de
prazer
imediata,
o
grão
é
pouco
saboroso,
mas
os
dois
tipos
de
alimentos
se
completam,
pois
é o
grão
que
sustenta.
É
ele
que
simboliza
a
civilização,
o
plantio
e
portanto
o
esforço
humano.
Já
Homero
identificava
os
grupos
humanos
civilizados
por
serem
"comedores
de
pão".
O
fruto
carnudo
e
doce,
ao
contrário,
é
coletado
diretamente
e
portando
é
uma
dádiva
da
natureza.
Dioniso
é
então
este
deus
do
contato
direto,
sem
esforço,
com
o
prazer.
No
entanto
a
oposição
e
complementação
mais
conhecida
é
entre
Apolo
e
Dioniso.
Embora
Apolo
nos
poemas
homéricos
tenham
também
um
caráter
violento
(são
suas
flechas
que
na
Ilíada
dizimam
os
aqueus
a
pedido
de
seu
sacerdote
Crises),
por
estar
associado
à
música
e à
poesia
através
da
lira
(que
na
verdade
revela
a
violência
original
do
arco
e da
flecha),
Apolo
acabou
tornando-se
o
deus
por
excelência
da
simetria
da
forma,
da
grave
determinação,
da
seriedade
de
tom,
características
que
hoje
chamamos
apolíneas.
Dioniso
parece
ser
uma
outra
vertente
de
um
mesmo
princípio.
Também
está
associado
à
poesia
e à
música
como
Apolo,
mas
seu
instrumento
é a
"flauta".
Aqui
cabe
uma
pequena
observação
esclarecedora.
O
termo
grego
que
em
geral
é
traduzido
por
"flauta"
é
aulos.
Este
instrumento
duplo
de
sopro
provavelmente
teria
um
som
mais
próximo
ao
oboé
ou a
gaita
de
foles
escocesa,
nada
relacionado
portanto
à
sonoridade
suave
das
nossas
flautas
atuais
e
mais
apropriado
aos
êxtases
dionisíacos.
Desde
cedo
Dioniso
foi
associado
à
idéia
de
irregularidade,
seja
no
ritmo
ou
na
linguagem
a
princípio,
e
consequentemente
nos
próprios
sentimentos.
Essa
ciclotimia
se
reflete
bem
na
falta
de
restrições
que
encontramos
na
poesia
coral
dionisíaca
executada
nos
sacrifícios
ofertados
nas
festas
a
esse
deus.
Em
geral
assumiam
a
forma
de
um
hino
em
celebração
das
dádivas
de
Dioniso.
Neste
hino
a
música
era
executada
no
modo
frígio,
reforçando
um
dos
mitos
de
uma
origem
não-grega
do
deus,
que
teria
vindo
da
Frígia.
Hoje,
no
entanto,
sabemos
que
o
culto
de
Dioniso
é
muito
antigo
na
grécia,
remontando
a
época
micênica.
Aproveitamos
para
lembrar
que
na
antiga
Grécia
havia
outros
centros
de
culto
dionisíaco
além
de
Atenas,
como
Tebas,
Corinto
e
Naxos.
O
verso
utilizado
era
o
ditirambo
e o
hino
assumia
a
forma
de
uma
dança
coral
acompanhada
de
gestos
e
movimentos
ilustrativos.
Essa
dança
mimética
denominava-se
órchesis.
As
características
especiais
de
Dioniso
acabaram
por
atrair
outros
seres
a
princípio
de
origem
heterogênea
tais
como
os
sátiros,
seres
com
características
animalescas
que
representariam
forças
vigorosas
da
natureza,
paixões
e
emoções
da
mente
humana.
Em
geral
são
representados
como
covardes,
sensuais,
livres
e
bem-humorados
e
com
um
pênis
em
permanente
ereção.
Havia
também
os
Silenos,
sátiros
velhos,
bêbados
e
lascivos.
Já
as
Bacantes
ou
Mênades
eram
entidades
femininas,
às
vezes
ninfas,
às
vezes
mulheres,
que
tomavam
parte
no
cortejo
de
Dioniso
com
os
cabelos
soltos
e
enfeites
florais
e
cuja
forma
de
contato
com
a
divindade
era
o
êxtase,
o
entusiasmo.
Vemos
igualmente
associados
a
Dioniso
os
Centauros,
representantes
também
da
força
e do
vigor
natural
e
amantes
da
embriaguês
e
finalmente
Pan,
deus
da
vida
rural.
Esse
conjunto
de
seres
configuraria
na
imaginação
grega
algo
que
é
recorrente
em
várias
culturas
e de
diferentes
formas,
esse
sentimento
de
que
há
algo
pulsante
e
incontrolável
no
mundo,
mas
que
é
também
uma
manifestação
de
uma
dimensão
superior
ao
homem,
algo
que
se
por
um
lado
pode
ser
fonte
de
alegria
e
libertação,
por
outro
pode
ser
também
perigoso
e
mesmo
mortal.
Algo
por
fim
que
representa
um
mistério.
Importante
detalhe
para
nós
nos
cultos
a
Dioniso
é o
uso
da
máscara
por
seus
seguidores.
Dioniso,
na
sua
relação
com
os
homens,
quer
mais
do
que
oração
e
sacrifício,
quer
a
pessoa
inteira
ao
seu
serviço,
e
por
meio
do
êxtase
a
eleva
acima
de
todas
as
misérias
do
mundo.
A
máscara
representa
o
elemento
de
transformação,
de
perda
de
identidade
e é
nela
por
seu
turno
que
se
baseia
também
a
essência
da
representação
dramática
e dá
ao
teatro
uma
peculiaridade
não
encontrada
nos
demais
gêneros.
Será
justamente
nesse
ambiente
religioso
e
festivo
que
será
introduzido
a
posteriori
o
teatro.
Isso
ocorreu
em
Atenas
no
séc.
VI
a.
C.
sob
a
tirania
de
Pisístrato.
Uma
pequena
explicação
histórica:
o
regime
tirânico
foi
ao
mesmo
tempo
uma
emanação
da
aristocracia
e
uma
reação
contra
ela.
O
poder
estava
nas
mãos
de
famílias
célebres
que
o
administravam
ou
através
de
um
regime
monárquico
ou
de
um
regime
oligárquico.
O
poder
podia
ser
transmitido
ou
hereditáriamente
ou
de
forma
eletiva,
mas
sempre
estava
nas
mãos
da
aristocracia.
Com
o
surgimento
de
uma
série
de
crises
no
seio
da
aristocracia
ocorriam
casos
em
que
um
aristocrata
toma
o
poder
indevidamente,
apoiado
por
outros
aristocratas
e/ou
por
um
grupo
de
cidadãos.
Pisístrato
foi
um
desses
tiranos
"populares".
Na
verdade
tomou
e
perdeu
o
poder
três
vezes
na
segunda
metade
do
séc.
VI
a.C
(561-555
a.C./544-538
a.C./534-533
a.C.).
Foi
justamente
durante
este
último
período
de
tirania
que
Pisístrato,
preocupado
com
o
apoio
popular,
estabeleceu
a
regulamentação
das
representações
teatrais
em
Atenas.
Antes
disso
o
teatro
tinha
um
caráter
privado
e
voluntário.
Temos
notícia
que
eram
já
apresentadas
"peças"
em
Atenas
desde
558
a.C.
associadas
a
Téspis,
o
primeiro
autor
de
que
temos
notícias.
Mas
foi
Pisístrato
quem
determinou
que
fossem
encenadas
em
uma
das
festas
mais
populares,
justamente
as
Grandes
Dionísias
Urbanas,
em
fins
de
março.
Pisístrato
com
isso
estava
fazendo
uso
da
religião
contra
a
aristocracia,
reorganizando
as
festas
tradicionais
e
especialmente
dando
patrocínio
estatal
ao
culto
mais
popular
no
momento,
o de
Dioniso
e de
sua
festa
mais
importante,
as
Dionísias
Urbanas.
Segundo
os
poucos
dados
que
temos
a
primeira
representação
de
uma
tragédia
dentro
das
Dionísias
Urbanas
foi
aproximadamente
entre
536-533
a.C.
Temos
poucos
dados
também
sobre
os
autores
dessa
primeira
fase
do
teatro
grego.
Após
Téspis
temos
notícia
de
Quérilo,
que
teria
composto
aproximadamente
160
tragédias
e de
Frínico,
discípulo
de
Téspis,
cuja
primeira
vitória
se
deu
entre
511
e
508
a.C.
Mas
os
grandes
nomes
da
tragédia
grega
no
séc.
V
a.C.
são
sem
dúvida
Ésquilo,
Sófocles
e
Eurípides.
Infelizmente
chegaram
até
nós
apenas
cerca
de
uns
10%
de
sua
produção
total.
Sete
tragédias
de
Ésquilo,
sete
de
Sófocles
e 18
de
Eurípides.
Já
nas
Dionísias
rurais
eram
reapresentadas
peças
que
haviam
sido
produzidas
nas
Dionísias
Urbanas
para
o
público
do
interior
da
Ática.
A
princípio
as
peças
apresentadas
nas
Dionísias
Urbanas
não
podiam
ser
reapresentadas
em
Atenas,
mas
a
partir
da
morte
de
Ésquilo
em
456
a.C.,
devido
ao
seu
enorme
prestígio,
suas
peças
foram
remontadas,
provavelmente
por
seu
filho.
Alguns
autores
na
verdade
consideram
que
Prometeu
Acorrentado
não
fosse
de
sua
autoria,
mas
sim
de
seu
filho,
que
a
teria
montado
usando
o
nome
do
pai.
Portanto
o
teatro
trágico
grego
tem
uma
dupla
ambientação:
religiosa,
por
um
lado,
já
que
se
insere
no
calendário
festivo-religioso,
mas
conjuntamente,
política,
pois
é
também
uma
festa
estatal.
Cabe
a
cidade,
a
polis,
se
incumbir
dos
preparativos
para
a
sua
realização.
Com
o
desenvolvimento
do
gênero
teatral,
que
praticamente
tornou-se
o
gênero
literário
mais
importante
na
Grécia
durante
o
séc.
V
a.C.,
as
Grandes
Dionísias
atraem
um
público
cada
vez
maior.
É a
própria
cidade,
Atenas,
que
se
reúne
em
peso
para
assistir
anualmente,
em
um
momento
especial
do
calendário
religioso,
tragédias
e
comédias.
É
portanto
para
a
pólis
que
as
peças
serão
direcionadas.
Mas
não
só.
Aos
poucos,
estrageiros
também
participarão,
muitos
vindos
de
outras
cidades
gregas,
mas
outros
vindos
mesmo
de
outros
países,
exclusivamente
para
assistir
as
representações
teatrais.
O
teatro
ateniense
passa
a
ser
cada
vez
mais
o
rosto
mais
atrativo
que
a
cidade
mostra
de
si
mesma,
símbolo
de
sua
importância
cultural
diante
de
seus
vizinhos
e de
certa
forma,
parte
da
política
hegemônica
ateniense
na
área
do
Mediterrâneo
oriental
a
partir
das
vitórias
contra
as
invasões
persas.
Passaremos
a
seguir
a
observar
mais
de
perto
a
programação
desse
conjunto
de
manifestações
religiosas,
políticas
e
artísticas
que
eram
as
Grandes
Dionísias
ou
Dionísias
Urbanas
após
a
regulamentação
instituída
por
Pisístrato.
O
festival
se
estendia
por
seis
dias,
dos
dias
10 a
15
do
mês
Elafebolión,
o
que
corresponde
em
nosso
calendário
a
finais
de
março
e
inícios
de
abril.
Durante
esses
dias
além
das
atividades
propriamente
religiosas
aconteciam
quatro
tipos
de
apresentações
artísticas
na
forma
de
concursos:
ditirambos,
comédia,
drama
satírico
e
tragédia.
Destas,
as
três
primeiras
tem
um
vínculo
claro
com
Dioniso,
já
para
a
tragédia
a
relação
não
é
tão
óbvia.
No
dia
dez,
um
grande
cortejo
conduzido
pelo
arconte-rei
e
protegido
pelos
efebos,
jovens
de
16 a
18
anos,
acompanha
a
estátua
de
madeira
de
Dionísio
Eleutério,
o
Libertador,
que
é
trazida
para
a
cidade.
À
noite,
essa
estátua
será
levada
ao
teatro
a
luz
de
tochas.
Deste
cortejo
participam
todos
os
concorrentes
nas
diversas
modalidades
poéticas.
Durante
todo
este
primeiro
dia
um
grande
sacrifício
de
inúmeros
animais,
uma
hecatombe,
alimenta
animados
banquetes
por
toda
a
cidade.
Nos
dias
11 e
12
temos
os
concursos
de
ditirambos,
que
eram
cantados
em
louvor
a
Dioniso
em
coros
de
homens
e
crianças.
No
passado,
na
realidade
ou
através
de
uma
simulação,
esses
coros
de
origem
muito
antiga
acompanhariam
um
rito
de
sacrifício
dionisíaco
com
dilaceração
e o
consumo
das
carnes
da
vítima
viva
e do
seu
sangue
ainda
quente.
Na
noite
do
dia
12
para
o
dia
13
havia
um
grande
kômos,
procissão
irreverente
de
foliões
com
faloforia,
transporte
do
falo,
no
qual
apareciam
figuras
disfarçadas
e
mascaradas,
em
geral
de
sátiros
ou
de
animais.
Seu
argumento
era
em
geral
rudimentar.
Havia
uma
entrada
em
cena
tumultuada,
uma
discussão
por
motivo
fútil
e um
discurso-bufo
final.
O
kômos
foi
na
verdade
um
espécie
de
embrião
da
comédia.
No
dia
13,
havia
justamente
o
concurso
de
comédias.
Nelas
temos
retomado
o
argumento
simples
do
kômos
em
uma
forma
mais
elaborada
nas
suas
três
partes
principais:
a)
párodo,
entrada
tumultuosa
do
coro,
evocando
eventualmente
uma
cena
conhecida;
b)
agón,
disputa
entre
as
personagens,
e
c)
parábase,
quando
o
coro
dirigi-se
diretamente
ao
público,
solicitando-o
como
testemunha.
No
entanto
a
comédia
diferencia-se
do
kômos
por
já
não
apresentar
com
tanta
frequência
Dioniso
e
seu
cortejo.
Os
dias
14 e
15,
os
dois
últimos
dias
do
festival,
eram
reservados
aos
concursos
trágicos.
Neles,
cada
autor
apresentava
três
tragédias,
a
chamada
trilogia,
e
finalizava
com
um
drama
satírico,
chamado
também
de
drama
silênico.
Todo
o
conjunto
das
4
peças
constituía
a
tetralogia.
A
trilogia
em
seus
princípios
apresentava
unidade
temática.
Apenas
uma
trilogia
temática
chegou
até
nós,
a
"Orestia",
ou a
"Trilogia
de
Orestes",
de
Ésquilo.
Nela,
a
primeira
tragédia
representava
o
regresso
e
morte
de
Agamêmnon
nas
mãos
da
esposa,
Clitmenestra;
na
segunda,
seu
filho,
Orestes,
o
vinga
matando
a
própria
mãe,
e na
última
Orestes,
é
inocentado
do
matricídio
pela
intervenção
da
deusa
Atena.
Apesar
da
grandiosidade
deste
tríptico,
a
trilogia
de
mesmo
tema
praticamente
não
foi
mais
usada
por
Sófocles
e
Eurípides,
sendo
cada
uma
das
tragédias
em
cada
trilogia
uma
unidade
em
si.
O
elemento
mais
importante
do
drama
satírico
e
que
por
isso
lhe
dava
nome
era
o
coro
de
sátiros
que
representava
sob
a
forma
de
danças
acrobáticas
o
aspecto
exterior
da
mania,
a
loucura
decorrente
da
possessão
divina.
Eram
algo
semelhantes
às
tragédias
na
forma,
mas
aproveitavam
os
detalhes
grotescos
da
lendas
antigas
no
seu
conteúdo.
Uma
das
nossas
mais
importantes
lacunas
em
relação
ao
teatro
grego
deve-se
ao
fato
de
apenas
um
drama
satírico
ter
chegado
completo
até
nós
pela
tradição,
os
"Ciclopes"
de
Eurípides,
além
de
um
fragmento
extenso
dos
"Icneutas"
de
Sófocles.
É
interessante
essa
composição
de
tragédias
e
drama
satírico
em
uma
unidade
maior,
da
qual
em
geral
temos
apenas
a
porção
trágica.
Muitos
autores
associam
a
tragédia
ao
sacrifício
de
um
animal.
Como
vimos,
nas
Grandes
Dionísias
era
sacrificado
um
bode
a
Dioniso.
Bode
em
grego
é
tragos.
Em
geral
a
morte
de
animais
na
caça
ou
em
sacrifícios
estavam
associados
a
sentimentos
de
culpa
pelo
sangue
derramado
que
em
tudo
é
igual
ao
do
próprio
caçador
ou
sacrificador.
O
animal
abatido
precisa
ser
apaziguado
de
certa
forma
para
que
não
perturbe
o
seu
matador.
Em
geral
uma
série
de
rituais
ou
atitudes
tem
essa
função.
Pois
bem,
se a
trilogia
trágica
é o
momento
do
sacrifício,
do
derramento
de
sangue,
da
matança,
deve
haver
alguma
compenção
em
cena.
Burkert,
portanto,
considera
natural
que
às
tragédias
sucedesse
um
drama
satírico,
pois
os
bodes
seriam
trazidos
de
novo
ao
palco,
agora
vivos,
na
verdade
transbordantes
de
vida
e
energia,
revertendo
os
maus
fluidos
através
da
ressurreição
e
assim
fechando
um
ciclo.
Já
do
ponto
de
vista
do
espectador
depois
de
uma
sequência
de
três
tragédias,
há
uma
grande
quantidade
de
tensão
naturalmente
acumulada
e
que
teria
seu
momento
de
liberação
através
do
drama
satírico.
Gostaria
de
enfatizar
agora
o
caráter
competitivo
das
representações
teatrais.
Esse
caráter,
na
verdade,
como
sabemos
desde
Nietzsche
, é
uma
das
forças
motrizes
da
cultura
grega.
Como
diz
Burkert,
"é
surpreendente
a
quantidade
de
coisas
que
entre
os
gregos
se
podem
tornar
objeto
de
competição:
esporte
e
beleza
corporal,
artesanato
e
arte,
canto
e
dança,
teatro
e
disputa".
O
enfrentamento,
a
competição
pública
(agón),
parece
atrair
irresistivelmente
os
gregos
e
todas
as
suas
festas
apresentam
algum
tipo
de
competição.
Não
devemos
nos
esquecer
que
a
civilização
grega
tem
um
caráter
fortemente
público.
Desde
os
poemas
homéricos,
os
heróis
tem
o
seu
status
definido
pelos
feitos
que
realizam
publicamente,
diante
de
iguais.
Os
Jogos
Olímpicos,
cujo
primeiro
registro
é de
776
a.C.,
são
o
exemplo
máximo
dessa
compulsão
competitiva
em
festivais
religiosos,
no
caso,
em
homenagem
a
Zeus
e de
caráter
pan-helênico,
onde
não
só
atletas
de
várias
cidades
gregas
competiam
nas
diversas
provas,
mas
também
poetas
e
oradores.
O
espírito
agonal
também
marcará
a
tragédia
grega,
não
só
pelo
fato
exterior
da
competição
entre
os
próprios
tragediógrafos,
mas
o
incorpora
como
uma
de
suas
partes
mais
essenciais,
a
cena
de
enfrentamento,
como
veremos
mais
adiante.
Assim
é
importante
sabermos
que
os
autores
apresentam
suas
peças
desejando
muito
vencer
e
isso
acaba
por
estabelecer
um
forte
vínculo
entre
o
criador
e o
público
para
o
qual
ele
cria.
Esse
público
é em
geral
amplo,
pois
todos
participam,
estrangeiros,
metecos,
isto
é,
estrangeiros
residentes
em
Atenas,
mulheres
e
talvez
mesmo
escravos.
Os
espetáculos
se
sucediam
ininterruptamente
da
manhã
até
o
meio
da
tarde.
A
luz
solar
é um
elemento
constitutivo
do
teatro
grego
que
nossas
encenações
modernas
em
geral
não
apresentam,
constrangidas
pelo
palco
italiano.
O
ambiente
durante
a
encenação
provavelmente
era
o de
qualquer
festival,
com
agitação
e
tumulto
devido
ao
público
muito
grande,
e
provavelmente
havia
consumo
de
comida
devido
a
longa
duração,
o
que
nos
lembra
um
pouco
o
tipo
de
público
que
Shakespeare
teve
em
suas
peças.
Esse
enorme
público
era
devido
ao
grande
acontecimento
que
eram
as
representações
teatrais.
Em
primeiro
lugar
era
a
grande
festa
de
Dioniso,
que
por
si
só
era
motivo
de
atração,
além
disso
havia
o
caráter
único
de
cada
apresentação,
que
durante
muito
tempo
não
voltaria
a
ser
exibida,
a
curiosidade
geral
para
saber
como
seria
tratado
um
tema
já
conhecido
por
todos,
e o
simples
prazer
das
pessoas
que
se
reúnem
para
uma
atividade
em
comum.
É
nesse
ambiente
de
festa
religiosa,
festa
do
espírito
e da
coletividade
que
as
tragédias
eram
apresentadas
e
por
isso
tiveram
um
grande
papel
na
formação
de
espírito
"nacional"
de
Atenas.
Mas
como
dissemos,
a
sua
organização
e
funcionamento
cabia
à
cidade
dentro
do
ano
religioso.
Especificamente
a
responsabilidade
da
organização
era
do
arconte-epônimo.
Uma
pequena
explicação
histórica:
a
comunidade
ateniense
mantinha
ainda
uma
antiga
divisão
em
tribos.
A
partir
do
regime
democrático,
das
antigas
quatro
tribos
tradicionais
foram
formadas
dez
novas.
De
cada
tribo
era
escolhido
um
arconte,
que
era
uma
espécie
de
ministro.
Esses
10
arcontes
organizavam
durante
um
ano
o
conjunto
da
vida
cotidiana
e
religiosa
na
cidade
de
Atenas.
Um
deles
chamava-se
arconte-rei
e
também
arconte-epônimo,
pois
dava
seu
nome
ao
ano
em
curso.
O
arconte-epônimo
tinha
como
função
escolher
três
poetas
trágicos
dentre
os
autorizados
a
concorrer
no
concurso.
Os
elementos
fundamentais
do
drama
grego,
seja
tragédia
ou
comédia,
são
o
coro
e os
atores.
O
coro
era
em
geral
constituído
por
12
ou
15
pessoas
que
cantavam
e
dançavam.
Os
atores
eram
em
número
máximo
de
três.
Tanto
os
participantes
do
coro
como
os
atores
eram
sempre
do
sexo
masculino.
Mais
adiante
nos
deteremos
mais
detalhadamente
no
coro
e
nos
atores.
Era
do
arconte-epônimo
também
a
escolha
de
um
cidadão
rico
disposto
a
assumir
o
pagamento
de
um
imposto
voluntário
para
financiar
os
custos
da
produção
de
todas
as
peças.
Esse
homem
chamava-se
corego
e
sua
função
era
a
coregia.
Os
custos
basicamente
eram
o
orçamento
do
coro,
mais
o
flautista,
e
das
máscaras
e
trajes
para
o
coro.
Era
responsável
também
pelo
pagamento
do
salário
do
corifeu
e
dos
atores,
que
são
já
profissionais.
O
ator
mais
importante,
o
protagonista,
era
pago
pela
cidade.
A
coregia
podia
ser
recusada,
mas
dava
prestígio
social
e
muitos
dos
principais
agentes
políticos
de
Atenas,
como
|